Uma quinta-feira de sol.
Um ingresso válido a partir de 9h30.
A viagem de uma hora - passando por estradas ruins e repletas de caminhões.
O velho conhecido.
Promessa de puro deleite.
Até que abrem os portões de Inhotim.
Tudo é caos,
tem mas acabou,
hoje só amanhã.
Frequento o museu desde a inauguração. Sou visitante fiel da nave-mãe na qual ele foi inspirado, a mágica ilha de Naoshima.
Desta vez, fui para levar uma amiga, estréia dela em Brumadinho. A idéia era ficar num hotel dentro do complexo, duas diárias ao custo de 25 mil reais. Oi? Não tive dificuldade para convencê-la a se hospedar comigo, free of charge, na casa da família, em Belo Horizonte.
Com a cabeça de quem vive fora há 10 invernos, organizei uma planilha simples. Aparei arestas para que tudo fluísse. Nada elaborado.
Chegar na hora, pagar pelo acesso aos carrinhos de golfe que funcionam como lotação. Saber que estaria cheio (capacidade total de 5 mil pessoas) pois é época de férias escolares. Inhotim é grande, uma fila ou outra, é sempre incrível.
Levei meu biquíni para submergir literalmente na obra (favorita) do Oiticica. Antes eles ofereciam toalhas limpas, mas vale levar uma canga, não contar com a sorte.
Boné, protetor solar, spray de mosquito, garrafinha de água.
Abrem-se os portais da arte que frequenta galerias: uma multidão desorganiza-se em filas quilométricas para entrar no museu na hora marcada no bilhete. Os malandros burlam a bagunça provocando mais confusão: usam a fila (menor) para quem ainda não comprou ingresso e dão um jeito de ganhar pulseirinha de acesso já que provam: têm ingresso.
Os que seguem regras abanam-se pacientes e esperam por quase uma hora sem fazer idéia do que os aguarda do outro lado da recepção.
Em minutos, os mapas acabam - mesmo que 90% dos tíquetes tenham sido vendidos antecipadamente. Imagine a dificuldade que é planejar oferecer um mapa por pessoa.
O transporte não dá conta. Filas. Esperas. Tempo que escorre. Antes não havia, mas a nossa desigualdade unida à desorganização estrutural hoje permitem a quem se dispuser a pagar ter um carrinho para chamar de seu. Abaixo, recorte do site do museu.
A visita mediada de 3 horas sai por 600 reais - não que eu soubesse que havia essa possibilidade, nem que eu quisesse - mas hoje, recomendo, pois o valor oferece a facilidade de furar filas de determinadas salas, além de, com sorte, ainda incluir um café com pão de queijo no espaço ‘Educacional’.
Eu tenho uma certa experiência de alguns anos como diretora na América Latina de uma agência internacional de arte, também já fui publisher de um jornal da SP-Arte no começo desse século. Fora que tenho um prazer em desuso de dirigir meus caminhos. Nesta quinta-feira, em especial, eu adoraria apontar para a visitante uma obra, contar de bastidores sobre como Bernardo Paz conseguiu certas peças (e nunca pagou por elas), ou explicar porque Tunga usava uma botina e não chinelos no festão de inauguração da Galeria True Rouge.
Ah, Ana tola. O tamboril gigante te aguardava. O paisagismo de Luiz Carlos Orsini e Pedro Nehring, mais de 4,3 mil espécies botânicas espalhadas por 140 hectares em meio à Mata Atlântica e ao Cerrado, não é selvagem como todo o resto. Você deveria saber.
Acintoso, estapafúrdio, incompreensível, impenetrável.
A foto que abre esse texto mostra o público atormentado de Yayoi Kusama às 10h30 de ontem.
Desista de ler os textos que apresentam a obra, ou a curta biografia do artista. Na instalação Cosmococa, por exemplo, grupos de 50 (!) visitantes tinham 7 (sete, sjö, セブン) minutos para “vivenciar” cinco salas. A piscina de neon, antes uma zorra maravilhosa de gentes, crianças, música, aficcionados, desavisados - um público! - hoje é absolutamente tudo o que Oiticica abominava: uma instalação que só pode ser vista, nunca experienciada.
Os icônicos fuscas coloridos de Jarbas Lopes (Troca-troca - 2002) mudaram de lugar, estão mais protegidos do sol - mas a lataria continua enferrujando e sem a devida manutenção.
Restaurantes? Sold out. Vendiam-se “ingressos” para almoço no site da Belvitur - com 48 horas de antecedência.
Lanchonetes - ok se você arriscar o café do Capim-Santo ao lado da lojinha - muito bem curada. Eu vou cravar que a loja é o único acesso disponível à ARTE nesse museu.
Pais com crianças, idosos, estrangeiros, forasteiros... Eu senti por vocês.
Fugi para as montanhas de Casa Branca, MG.
Tomei a estrada, passei pelo lugar da tragédia, escolhi vias que só com algum conhecimento prévio é possivel transitar. Paisagens.
Tentei oferecer algo a amiga neófita.
Justiça seja feita (provavelmente com aval do STF), Inhotim cumpriu a missão de traduzir a arte contemporânea no Brasil com maestria.
Ali, aprende-se rápido que arte é mercado, é privilégio, é desigualdade.
Hoje, o visitante já intui que nada daquilo é para ele e, muito menos, por ele. Bravo!
Para fechar a experiência com a propriedade demandada, recomendo a leitura de “Dark Side of the Boom: the Excesses of the Art Market in the 21st Century” (O lado obscuro do boom: os excessos do mercado no século XXI - de 2017 e ainda sem edição brasileira). No livro, Georgina Adam narrou o que Inhotim hoje ilustra para quem estiver disposto a ir para ser excluído in loco: arte é especulação, fraude, lavagem de dinheiro.
Divirta-se (e, querendo, mande sua selfie com cara de intelectual privilegiado vestido de Issey Miyake para o instagram. Eu fiz a minha parte e incluí óculos escuros).







É isso. Quem foi, foi. Quem não foi, não vá!
Nhô Tim, museu da lavaçāo de dinheiro e da sonegaçāo. Nāo fui e nunca gostei. Obrigado pe,o texto.