Manancial Sagrado
Bad Bunny e outras estórias
Uma coisiquinha diminuta. Cabelos negros - curtos. Pele marrom clara. Sorriso bonito, boca entreaberta, revelando dentes brancos. Tão discreta, pequena, que, desafiando as leis da física, praticamente não ocupava lugar no espaço. Menos de um metro e meio. 40 quilos se tanto.
Nunca brigou com ninguém. Nunca gestos largos. Olhar direto, sutil, porém. Ah… O sotaque mais doce. Impossível ouvir e não baixar a guarda.
La Muy Noble y Leal Ciudad de Nuestra Señora de los Zacatecas, assim definiu o rei Felipe II da Espanha num dia de junho em 1588. Zacatecana típica, nascida e criada na belíssima cidade indígena (Nossa Senhora é coisa de invasor) com enormes minas de prata que, por isso mesmo, foi dominada pelos colonizadores. A família, contou, trabalhava na agricultura, guajiros de fora da capital. De Mexico DF até Zacatecas é chão. Imagine atravessar um portal da historia. Os Zacatecas eram bravos, nunca foram dominados pelos astecas e guerrearam muitas batalhas com os espanhóis pela independência do México. Também eram/são pequenos, marrons, de cabelos negros e lisos.
Suave menina de nome gigante. Lizbeth Fuensanta. Um misto de nobre medieval com santa cabalística. Fuensanta vem do latim fons sancta - manancial sagrado.
No refeitório, era nossa heroína contemporânea. Motivo de disputas famosas.
A culpa? Um dia banal, comia sua saladinha de alface pintada com um molho muito vermelho, que trouxera de casa.
- Catchup?
- Não. Salsa casera. E ofereceu.
O gordo, sem a menor cerimônia, encheu o prato. Na primeira garfada, assombro. O nariz, as têmporas, as orelhas. Tudo foi rapidamente ganhando cor. Ele, suarento por natureza, ficou com a camisa encharcada. Tentou rir, fazer uma graça. Mas só saiu… m grito.
- Água, água, por favor!
Levantou-se em desespero. A língua, inchada, para fora.
Limpava o suor da testa, puxava a gola da blusa. Levantava os braços, em desespero.
Em meio a gargalhadas, trouxeram um copinho de rum.
- Toma-te niño. Que te vá parar de picar.
Aos poucos, a língua - escoladíssima em apimentar intrigas, noviça em picadas - foi melhorando. Trouxeram um grande prato de arroz branco. O gordo comeu tudo.
E Lizbeth Fuensanta involuntariamente tornou-se o centro de todas as atenções em nossos encontros involuntários no Comedor.
O molhinho caseiro era uma mistura do que há de mais típico para um Zacatecano: pimenta da grossa. Jalapeño, poblano, mirasol, serrano, e chilaca (por lá, chamada pasilla) - desde pequeno, come-se de tudo com salsa picante, inclusive alface (!). O que, para ela, era apenas um molhinho de salada, para nós, reles mortais, era o desafio do diabo.
Diariamente, Fuen (como era carinhosamente apelidada), descia com seu vidrinho de molho e, vez ou outra, os mais doidos ou os recém-chegados impetuosos, eram convocados para a competição.
Dois pratos de salada.
O de Fuen, com o dobro de molho do do desafiante.
Ela começava a comer, e o competidor, tentava acompanhar. Até mexicanos de D.F. tentaram.
Mas jamais, houve alguém, além dela, que limpasse o prato.



